O céu e a vida simples

Conforme o observatório Nacional, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação (MCTI), nas madrugadas dos dias 05 e 06 de maio de 2025 ocorreu a manifestação da tradicional chuva de meteoros Eta Aquariids, que é formada por fragmentos do famoso Cometa Halley.  Difícil observar a olho nu morando em apartamento em um bairro residencial populoso e majoritariamente formado por construções verticais, na cidade de Porto Alegre. A iluminação artificial da cidade grande não permite que os rastros luminosos dos meteoros se destaquem no céu noturno.

Durante os anos 70 e 80, vivia  no interior do Rio Grande do Sul, em uma cidadezinha pequena de pouco mais de seis mil habitantes aproximadamente,  à época, chamada Encruzilhada do Sul. À noite quando ia fechar  a janela  ou ia até o pátio grande  da casa pequena onde  morava, me deparava, ao contemplar o horizonte, com o céu coberto de estrelas. Certamente chamava atenção de uma criança a imensidão negra salpicada de luzinhas cintilantes, umas maiores, outras menores, umas mais fortes, outras com seu brilhinho exíguo e quase apagado e outras resplandecendo e parecendo enormes.

E o que se pensava nesses momentos? Em quase nada, a não ser tentar encontrar o Cruzeiro do Sul, as Três Marias e ficar um pouco perdida, observando que muitos dos agrupamentos eram parecidos nas suas formas e poderiam confundir um desavisado e não treinado caçador de constelações. Aos poucos íamos aprendendo a identificar com a ajuda, geralmente, de alguém mais velho. Outras vezes do pai, que saia para fumar e sentir um pouco do sereno da noite e se deparava com as crianças olhando para o céu e procurando entender aquele mistério que era o céu.

“Ali está o Cruzeiro, será que é?” “Ali está ele. Olhem bem, a ponta  está virada para o sul. Ao todo são quatro em formato de cruz e tem mais uma,  a intrometida, ali bem  no cantinho, perto da base da cruz.” “Onde?” “Ali, onde tem duas brilhantes lá em cima, sempre perto dele e tem uma sombra, aquele monte de estrelinhas mais opacas,  ali no canto, ali  é o Cruzeiro.” O diálogo ocorria sem apontar o céu, porque havia uma superstição, diziam que se apontasse para as estrelas nasceria uma verruga na ponta do dedo. Além disso,  quase sempre tinha alguém que tentava  contar as estrelas. O que era bem difícil. Difícil contar sem apontar, pois não se chegava a cem sem se perder no meio do caminho. Em dias nublados, se contasse e tivesse menos de dez estrelas visíveis era sinal que a chuva ia ser forte, segundo os ensinamentos paternos.

Outra coisa  que  me deixava pensando enquanto olhava o céu, pois tinha ouvido possivelmente em algum programa de TV, talvez no Sítio do Picapau Amarelo ou em alguma novela, é que muitas daquelas estrelas que estávamos vendo ali já estavam mortas. Eu encuquei porque quando alguém morria, era comum  falarem para as crianças  que a pessoa morta tinha virado uma estrelinha. Ficava horas pensando sobre essa informação e tirava minhas próprias  conclusões: se quem morre vira estrelinha e as estrelinhas que vemos já morreram, então são pessoas que morreram e agora ficam nos observando. Será que se morrer pequeno vira estrela pequena e  se morrer mais velho  vira estrela grande? Para os adultos não me atrevia perguntar porque não me davam muita importância.

Não me atrevia a iniciar uma conversa com as estrelas, nessa época era mais contemplativa, não tinha muito o que falar,  mas sempre me perguntava, será que dá para falar com elas, já que elas já foram gente? Como no poema de Bilac, que conheci  quando aprendi a ler e lia todo livro que caia na mão: “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo/Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,/Que para ouvi-las, muita vez desperto/E abro as janelas, pálido de espanto.../E conversamos toda a noite, enquanto/A via láctea, como um pálio aberto,/Cintila. E, ao vir o sol, saudoso, em pranto,/Inda as procuro pelo céu deserto. (...)”

 

E quando começava a entardecer e estávamos em frente a casa tomando chimarrão, quando aparecia  a Estrela Dalva,  meu pai falava (toda vez): “A Estrela D’ Alva, na verdade é o Planeta Vênus, ele tem esse nome porque ele também aparece na alvorada que é o início da manhã, quando saio pra trabalhar às vezes eu vejo. Ele aparece assim, primeiro que as outras, de manhã e depois no fim da tarde. Se consegue ver a estrela D’Alva é sinal que não vai chover no outro dia.”

Ao pensar sobre esse hábito de contemplação, considero importante observar que se fazia isso sem intenções maiores, isso era o que costumávamos fazer. Sentir o friozinho da noite, olhar para o céu, identificar as constelações e talvez fazer a correspondência com o que tinha ouvido dos mais velhos e mais  experientes, assimilando os saberes mais antigos.

A partir do observar e  dos ensinamentos dos mais velhos, nasciam nossas dúvidas, imaginávamos e tirávamos as próprias conclusões. Entendo que era um exercício saudável, pois reflexivo,  de atenção plena, que é quando se está presente em alguma atividade, sem se deixar abalar com preocupações, com passado e com futuro. Apenas observar, apreender, tentar entender, isso sem pressa, sem culpa, sem julgamentos de certo e errado, de bom ou mau, de verdade ou mentira.  Nessa época não havia Google, GPT ou similares, então não se tinha pressa em buscar as respostas

Era o que era e se vivia e aprendia para a vida. Ficaram boas memórias de uma vida simples.

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